Parashá: Chayei Sará

Massoret Habrit (MH) – Antes de começar esta entrevista com a nossa primeira matriarca, Sara, quero registrar a imensa alegria de voltar, depois de 2 anos, a falar com nossos heróis, heroínas e outros personagens da Torá e com todos que aguardaram esse retorno. Em particular, espero, nessa retomada do MH, dar às mulheres seu espaço merecido, o que não acontece nem na Torá, nem no primeiro ciclo do MH, quando poucas mulheres foram ouvidas.

Nada melhor que retomar a série com nossa primeira matriarca, que acompanhou Abraão na sua viagem de encontro consigo mesmo (Lech lechá). Mulher lindíssima, inteligente, comunicativa. Vamos então à conversa com essa mulher sensacional.

Certamente este curto espaço do MH será insuficiente para falarmos de sua vida, ou melhor, de suas vidas. Se foi difícil para Abrahão abandonar seu país, sua casa, sua família sem dúvida, foi mais difícil para você, afinal, ao que se sabe você partiu sem saber muito por quê, para quê, para onde estavam indo. Além disso, há dois episódios semelhantes de difícil compreensão: primeiro com o faraó, na primeira jornada para o Egito, fugindo da fome, e tempos depois na viagem ao território de Avimelech, quando Abraão, com medo ser morto, falou que você era sua irmã. Sara, diga-nos de sua partida e qual foi tua sensação ao ser deixada por Abraão com esses homens tão perigosos?

Sara – Refleti muito sobre isso e acho que tudo faz parte do meu crescimento de compreensão da minha vida. Apesar de não ter sido chamada por Deus para meu “Lech Lechá”, tenho certeza de que tive papel nessa convocação divina. Por muitos anos, fui eu quem questionou Abraão, de que, mesmo tendo seu futuro garantido em Ur, não era aquele o seu lugar. Ao contrário de Abraão, preparei as mulheres para essa viagem. Assim, quando ele recebeu a mensagem: “Vai para ti e da tua terra, e da tua pátria e da casa de teu pai, para a terra que mostrarei.”, nós, as mulheres de Ur que iriam nos acompanhar, já estávamos preparadas e a partida foi muito mais fácil. Quanto aos episódios com o faraó e com Avimelech, fiquei tranquila, porque sabia que nada aconteceria comigo, mas não posso negar que fiquei decepcionada com Abraão – mas superei rapidamente.

MH – Queria falar de um assunto mais delicado com você, que foi o papel da Hagar na vida de vocês.

Sara – Sem dúvida foi difícil. Confesso que cometi muitos equívocos. Para começar, quando senti que não podia dar filhos ao Abraão para ele cumprir a promessa divina “E farei de ti uma grande nação”, sem consultar ninguém, entreguei Hagar, a minha escrava egípcia que gerou Ismael. Nessa primeira vez, Hagar funcionou para mim e para o Abraão como uma forasteira oprimida num triângulo de amor e fertilidade. Conformei-me com meu papel secundário, até que os anjos anunciaram o nascimento de Isaac. Com o nascimento do menino, recuperei minha posição central. Mas entendia que ela e o Ismael não aceitavam seu novo papel. Equivocadamente, exigi de Abraão que ele os banisse. Aí acho que foi meu grande equívoco. Se não fosse por Abraão e Deus, os dois teriam morrido de fome. E depois notei que, por causa desse episódio, Hagar e Abraão se reconciliaram.

MH – Como assim?

Depois que morri, Abraão voltou aos braços de Hagar. Demorei, mas reconheci em Hagar uma mulher agradável que permaneceu leal a Abraão e, por meio de suas boas ações, ganhou o apelido de Keturah. Hagar como Keturah ofereceu a possibilidade de curar erros passados.

MH – Encerrando nossa entrevista, queria que você transmitisse o legado que você deixou a Abraão, Isaac e todo o povo de Israel.

Sara – No meu enterro, Abraão e Isaac me elogiaram e choraram por mim. Respondendo sua pergunta, meu grande legado foi ter gerado Isaac. Abraão, em seu discurso, destacou minha lealdade contínua à tradição de “Torat imeha”. Criei um filho que perpetuou o caminho de Deus e que iria se sacrificar pelo Seu amor. Todas as gerações futuras mereceram perdão e graça de Deus por causa deste gesto de auto sacrifício e fé final.